segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O jogo

Ver seu rosto novamente foi uma surpresa para mim. Afinal, ele tinha tanta vontade de fugir que não imaginava que ele voltaria, por qualquer motivo.
— Tom! — exclamei.
Ele, que estava debruçado sobre o carro, apenas com o rosto à mostra no vidro da frente, rolou por sobre o capô do carro e desapareceu à minha frente.
Fiquei tentado a abrir a porta do carro, sair e procurá-lo, mas algo me disse que era melhor eu ficar lá dentro do automóvel por um tempo.
Não passou um minuto, Tom estava ao meu lado — me assustando de novo — puxando a porta, que simplesmente fora arrancada.
— Olha — disse ele, — eu não costumo fazer isso...
Eu o fitei surpreso, esperando para ver se ele arrancaria o banco em que eu estava também. Ele não mudara quase nada. Apenas seu rosto, agora havia umas cicatrizes que eu não sabia bem o que era.
— ... Mas vim lhe trazer um recado.
— Um recado? De quem?
Tom fez sinal para que eu saísse do carro. Eu entendi e me levantei, não sentindo faltada porta a meu lado.
Então, eu estava ao lado daquele que tentara me matar há menos de um dia atrás.
— Olhe — ele se inclinou, como se quisesse esconder o que ia dizer. — Você sabe bem que eu não gosto muito de cumprir ordens, — ele tinha razão. Pelo que eu entendi, Thomáz o havia contratado para que ele me levasse para a casa abandonada, mas Tom não obedecera, tendo quase me assassinado. Não fosse por Gabriel, eu estaria morto muito antes de agora. — porém, esse pedido eu tinha que atender.
— Pedido? — eu não suspeitava de quem viria esse pedido.
— Sim. Há algumas horas atrás, quando você e Gabriel me soltaram do monte de entulho, eu corri e encontrei com Thomazrael. Ele estava à minha espera. Disse-me sobre algum jogo que faria com você. Sabe de algum jogo?
Thomáz, noite passada, havia deixado-me um recado na janela de Andressa. "Vem brincar, Renael". Eu não imaginei que ele estaria falando sério.
— Jogo? — perguntei.
— Sim. Bom, ele disse que você saberia... de qualquer forma, ele pediu para avisá-lo que apenas o Êxodo poderia te ajudar. Faz algum sentido para você?
Discordei com a cabeça. O que ele queria dizer?
— Bom, eu não sei o que significa, mas ele disse que eu poderia assistir à brincadeira de vocês, se eu te trouxesse esse recado.
Ele parou por um instante e começou a farejar o ar. Fiquei olhando, procurando o que ele procurava. Mas então percebi que ele nada procurava.
— Bom... recado dado... só tenho uma dica.
Eu já quase não estava em choque mesmo. Acho que uma dica, mesmo sendo de Tom, ajudaria. Ele se inclinou novamente e sussurrou:
— Thomazrael é muito bom em jogos, tanto para jogar quanto para inventá-los. Ele não costuma trapacear, e talvez esse seja o maior defeito dele. Seus jogos só costumam acabar quando alguém perde. Fique esperto.
Ele começou a farejar o ar novamente e, de repente, um pássaro surgiu do nada, voando em direção à rua. Tom saltou e agarrou o pássaro. Ele caiu do outro lado da rua e depois desapareceu de meu campo de visão.
Êxodo? Estaria ele falando do livro da bíblia? E que jogo é esse do qual ele fala? Ah, eu não sabia que ser Anjo da Guarda era tão complicado!
Eu lembro que, antes de Tom aparecer, eu tinha algo em mente para fazer. Só não consigo me recordar o que era.
Andei alguns passos à frente e me dei por vencido. Eu não lembraria por um bom tempo.
O que eu faria então?
Olhei para a casa. Andressa estava lá dentro. Eu não aguentava mais. Eu precisava ver Andressa. Deixei de lado o que eu ia fazer, já que eu não lembraria, e fui até a porta da casa de Tabata. Parei em frente à entrada, decidindo se eu devia fazer aquilo ou não. Toquei a madeira do objeto que tampava a passagem, pude sentir as emoções de todos que estavam lá dentro. Encostei meu rosto na porta e não consegui ouvir nada. Silêncio. Eles faziam silêncio. Nada se ouvia de lá de dentro. A porta não estava trancada. Virei a maçaneta e a abri devagar, para não chamar atenção. Adentrei minha cabeça no recinto, olhei ao redor, não havia ninguém ali, na cozinha. Entrei de corpo inteiro. Antes que eu pudesse fechar a porta, ouvi o som de um grito. Era André. Corri para o cômodo de onde eu havia ouvido o som de sua voz. Chegando lá avistei André.
— André... — então percorri o olhar pela sala. Dona Ana e Tabata estavam lá.
André olhou-me com uma cara de espanto.
— Renan? — ele disse.
Tabata e dona Ana olharam para a direção que André olhava — a minha direção. A porta, que eu havia deixado aberta, fechou-se com um estrondo que fez todos pularem. Então, todos estavam assustados olhando na minha direção. Fiquei com uma dúvida na cabeça, será que eles me viam? Olhei para André, que eu tinha certeza que me via, coloquei meu dedo indicador direito em frente minha boca, fazendo sinal para ele não fazer nenhum som. Ele compreendeu e disse:
— O Renan... — a atenção das duas tornaram para ele. — Souberam dele?
Dona Ana foi quem disse:
— Nada — ela abaixou a cabeça e ficou fitando algo na mesa de centro por um tempo. Depois levantou a cabeça e continuou a dizer: — Desde que o garoto saiu daqui com aqueles policiais, tarde de ontem, não temos notícias dele.
Ela torceu o rosto em uma expressão triste. André estava se segurando para não dizer o que acontecera realmente.
Percebi que apenas dona Ana falava. Virei o rosto para a direção de Tabata e levei um susto. Ela continuava a olhar em minha direção. Exatamente na direção dos meus olhos. Ela parecia me ver. Fez uma expressão de desconfiada.
— Mãe — disse Tabata, — a senhora pode me fazer um favor?
Dona Ana olhou para a filha, esperando pelo favor que seria pedido.
— Pode ir ver se Andressa está bem?
— Ora, mas por que você não vai?
— Eu... Eu estou com um pouco de dor de barriga... subir as escadas não será muito bom para mim, sabe como é não é?
— O.k., o.k., Tabata... Não precisa dizer isso na frente das visitas.
Dona Ana levantou-se e pegou uma xícara que estava à frente de André. Ele agradeceu. Depois ela veio em minha direção e passou ao meu lado, não parecendo perceber minha presença. Que bom.
Tabata ficou olhando para ela, e fez isso até ela voltar e subir as escadas em direção aos quartos. Ela fez isso olhando para André com a mais simpática das faces. Dona Ana era uma pessoa muito boa.
Assim que dona Ana desapareceu no andar de cima, Tabata se levantou, olhando na direção dos meus olhos.
— Beleza! — ela abriu os braços e fechou os olhos. — Quem está aí? — disse em um sussurro.
Me apoiei no meu pé esquerdo e fitei André.
Ele me respondeu com um olhar de quem diz "Eu não tenho a mínima idéia do que essa louca está fazendo!".
Tabata continuava com os braços abertos. Então, num movimento rápido, ela jogou o braço direito para atrás da cabeça e o voltou para seu lugar. Ela repetiu o movimento com o braço esquerdo. Então fechou as mãos em punhos, jogou os braços para frente e abriu as mãos na minha direção. O que ela estava fazendo, Senhor? Ela abriu os olhos e, neles, eu vi um brilho que não era normal ver naquele rosto coberto por sardas e cachos ruivos. Seus olhos continuavam da mesma cor castanhas, mas brilhavam como se houvesse uma lanterna dentro das órbitas.
— Renan? — disse ela com a voz um pouco alterada.
Devo ter arregalado meu olhos e meu rosto deve ter ficado parecido com o de André, que estava demonstrando sua surpresa com sua boca aberta.
— Renan, é você?
— Tabata? — o mundo parou. Tudo que eu estava pensando se apagou de estalo. A voz que viera da escada preenchera todo o meu ser e, como se fosse água, me encharcou, me cobrindo por inteiro. Andressa descia as escadas. Parou no terceiro degrau e fitou Tabata.— O que está fazendo?
Ela estava linda! Usava a mesma camisola que eu a vestira noite passada.
Tabata abriu os olhos, fixou-os em mim ou, pelo menos, no que ela via. Virou-se e se encaminhou a Andressa.
— Andressa... você está bem? — segurou sua mão e a segurou enquanto ela terminava de descer as escadas.
— Eu estou bem.
Tabata a acompanhou até o sofá e ajudou-a a sentar-se.
Segui até o lado de André enquanto Tabata conversava com Andressa. Abaixei e deixei meus lábios próximos ao ouvido dele.
— Por que gritou? — sussurrei, mal-humorado.
Ele fingira que não me escutara. Ele estava certo, mas eu queria uma explicação.
— Ele apareceu aqui esta manhã... disse que tem algo a lhe falar.
— Você tem? — perguntei a ele.
— Você tem? — perguntou-lhe Andressa.
André se inclinou na direção de Andressa e disse em voz baixa:
— Andressa, o que lembra da noite passada?
— O que está fazendo, André? — inquiri uma resposta.
Andressa fechou os olhos de sono. Reabriu-os e olhou para André com confusão no rosto. Ela, provavelmente, tentava lembrar o que acontecera. Eu me sentia tentado a entrar em sua mente, mas Gabriel me alertara que não era certo fazer isso. Começou a massagear as têmporas e, depois de um tempo, disse:
— Eu... eu não... eu não lembro.
— Andressa — disse André, — ontem a noite aconteceu uma coisa muito estranha...
— André... — tentei persuadi-lo a parar de falar.
— ... Eu não lembro de nada pois eu estava em transe e... — ele continuava.
— André — apoiei-me nas costas do sofá em que ele estava sentado, ficando, assim, ao seu lado. — Cale-se.
— ... e o Renan...
André calou-se. Ele olhou para o chão e viu um ponto vermelho. Percebera, então, que aquele ponto vermelho era um líquido e vinha de algum lugar de seu rosto. Ele tornou a olhar para cima e pôde ver a forma reluzente e dourada da arma que o arranhara a ponta do nariz. Engoliu em seco.
Tirei a maça da frente do rosto de André. Ele não voltou a falar.
Andressa, que até então massageava a pele entre as sobrancelhas e o coro cabeludo começou a sussurrar algumas palavras. Dentre elas, consegui reconhecer uma:
— ...Tânia...
— O quê? — perguntou Tabata.
— Tânia... Ele me pediu para encontrar Tânia. Tânia Correia Medeiros.
Andressa lembrava. Eu mesmo não lembrava. Isso, Andressa!
— Ele quem? — Tabata questionou.
— Renan.
Tabata continuou a fitar Andressa.
— Você o viu? Ele que te trouxe aqui?
André permanecia imóvel, não sabendo se devia responder às perguntas de Tabata.
Andressa olhou para André e, em seu rosto, houve certeza, como se só ele pudesse responder o que ela perguntaria.
— O Renan... Ele está morto, não está?
André não sabia se respondia. Ele estava com medo do que eu podia fazer a ele.
Coloquei a mão em seu ombro, tranquilizador. Ele olhou para mim e eu balancei a cabeça, assentindo.
André abaixou a cabeça e Andressa entendeu isso como um "sim".
Tabata colocou as mãos sobre a boca e seus olhos se encheram de lágrimas.
— Mas... como? Como? — Tabata começou a chorar.
Andressa levantou-se, decidida. Se encaminhou à escada e começou a subi-la.
— Onde você vai, Andressa? — perguntou Tabata.
— Vou pegar minhas coisas. — ela subia com a confiança denominando sua mente. Percebi que eu sorria. — Vou encontrar essa Tânia.
Tabata e André se entre-olharam, mas foi Tabata que disse.
— Mas Andressa.... não sabemos nada sobre essa mulher.
— Eu sei que ela mora no centro de São Paulo, pra mim já é o bastante.
De repente, um som interrompeu a conversa. Pareceu uma explosão, mas vinha de tão distante... parecia ter vindo do céu.
— O que foi isso? — André disse.
Andressa, que estava parada em meio a escada, terminou de subir a escada, provavelmente para olhar o céu de alguma janela lá em cima. Tabata e André correram para a porta da frente, a abriram e saíram para a rua. Eu os segui. Assim que coloquei os pés fora da casa de Tabata, André me olhou com urgência. Fez menção a algo que estava acima dele. O céu. Ele apontava para o céu. Eu o segui e levantei minha cabeça. Acima de nós, a minha certeza de que Thomáz falara sério em relação a fazer um jogo.
A luz que parecia sugar tudo ao seu redor, presente no céu, dissipara-se, dando lugar a um enorme contador regressivo luminoso. Parecia ser feito de névoa. Os números eram claros e me deixavam com um medo e uma agonia crescente, a cada vez que um número se transformava. Os números marcavam:
47:58:45

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Sapos

— Ow! — resmungou André.
Eu vi o animal se jogar de encontro ao rosto de meu protegido e o peso do impacto fora tão grande que André caiu para o lado.
— Ah! Tira! Tira! — André dizia com desespero.
Eu me aproximei do rapaz que estava deitado no chão com as mãos no animal que agora eu podia ver com nitidez. Era um sapo, ou algo parecido. Agarrei o anfíbio e o puxei. André se mexia e estava quase impossível tirar o animal de seu rosto. Ele parecia estar grudado à cola quente. Puxei-o com maior força e o animal soltou o rosto de André. Dei dois passos para trás e quase cai de costas com a força que usei — e que recebi de volta, segundo lei de Newton.
Contemplei o ser em minhas mãos, parecia uma almofada redonda, porém sua pele era escamosa e escorregadia. O animal não queria estar em minhas mãos. Ele tentava com todas as suas forças se jogar em André. Procurei algum lugar para colocar o animal insaciável. A busca fora tão cansativa e inútil que o animal conseguira se soltar e pular atrás de André.
— André! — alertei.
André viu o animal se aproximar e se abaixou. Engatinhou em minha direção e eu observei o anfíbio cair onde André estivera há pouco tempo.
Aquele animal queria fazer mal a meu protegido. E, segundo Gabriel, eu haveria de protege-lo a qualquer custo. Mesmo que isso custasse a vida de um sapo. Apanhei minha maça dourada e esperei o animal pular em minha direção. Quando ele o fez eu o rebati com a arma. O animal explodiu com um som mais ou menos assim: Plash.
Arfamos em conjunto, André e eu.
— Ah, Cara! Que bicho é esse?
— Eu não sei, mas sei de onde veio.
Fui até a entrada da casa e tentei abrir a porta, estava emperrada. Empurrei-a segurando na maçaneta. A porta continuou em seu lugar. A maçaneta, porém, continuou em minha mão. Forcei a porta com meu corpo, empurrando-a. Então ela finalmente abriu. A porta se encaminhou para fora dando visão à coisa mais estranha que já vi em minha vida.
Lá fora, no chão, poças de água vermelha, sobre elas, milhões de sapos. Todos coaxavam e saltavam individualmente em seu espaço. Porém, quando André chegou ao meu lado e disse:
— Mas o que é isso?
Os anfíbios pararam de fazer o que estavam fazendo. Não houve nenhum som, nem de coaxo, nem de sapos pulando. Todos tornaram a atenção para André. Em menos de um minuto, seguido de um coaxo apenas, todos os sapos saltaram e se jogaram em direção a nós.
Empurrei André para trás e puxei a porta segurando em um dos vãos. Os sapos se chocaram contra a entrada mas eu não cedi, apesar estar sendo difícil segurar aquela porta. Depois de um tempo, os sapos se acalmaram e eu, então, fechei a porta por completo, puxando-a pelo buraco que ficara no local onde estava a maçaneta. Apoiei minhas costas e fiquei a fitar André.
Tirá-lo daqui deveria ser prioridade. Eu tinha que arranjar um jeito de fazer isso, mas como? Os sapos o queriam, isso estava evidente. Se bem que... que perigo pode oferecer um simples anfíbio?
Bom... um monte de anfíbios podem oferecer perigo quando todos eles estão em cima de você. E se houvesse algum perigoso? Venenoso? E se nem fossem sapos comuns?
— Renan? — André estalou os dedos à minha frente e eu despertei.
— Tenho que te levar a algum lugar seguro.
Agachei onde estava e comecei a pensar. Onde eu o levaria? Onde ele estaria seguro? Isso só podia ser coisa de Thomazrael! Ele perseguiria André em todo lugar. Primeiro a chuva de água vermelha, depois os sapos... Isso até me soava familiar.
E se eu o levasse para a casa de Tabata? Talvez fosse um lugar bom para ele ficar. Tabata, toda paranormal... Agora me veio a cabeça... Eu nem tive a oportunidade de me despedir de Tabata e sua mãe.
Sua casa era a opção mais segura. O problema seria o transporte. Será que eu conseguiria levar André sem maiores problemas com os sapos? eu poderia voar com ele, se Gabriel não tivesse me alertado sobre isso. Não devemos voar com os protegidos, não enquanto eles estão conscientes.
Olhei para todos os cantos da casa, apenas avistei pedaços de madeira, tijolos e papelão. Mais ao canto, havia um pedaço de pano velho.
— Renan, você está dormindo?
Eu teria que escondê-lo.


Dei o primeiro passo afora de casa. Os sapos pareceram não me perceber — se perceberam, fizeram pouco caso. Olhei para André atrás de mim, ainda dentro da casa abandonada. Fiz sinal para que ele viesse. Ele relutou, porém, com minha insistência, ele resolveu vir. Seus primeiros passos foram lentos e assustados. Então, percebendo sua insegurança, fui buscá-lo.
— Vai dar tudo certo! — eu lhe disse. Ele assentiu.
Agarrei-o pelos ombros e comecei a andar com o rapaz encapuzado com o pano velho. Jogamos o pano por cima de seu corpo, tampando sua cabeça e, por consequência, sua visão. Apenas sobrou um buraco perto do nariz, por onde ele conseguiria olhar o chão em que pisava.
— Não diga nada. Pode chamar a atenção deles.
Ele assentiu mais uma vez.
Demos um passo a frente, nenhuma reação dos anfíbios.
Continuamos em passo lento não causando ação dos sapos. Estávamos, aos poucos, alcançando uma distância considerável da casa abandonada. O problema era que a casa de Tabata ficava a quase um bairro dali. Não chegaríamos nunca a nosso destino na velocidade que estávamos. Aproximei minha boca do ouvido de André.
— Responda com a cabeça, você sabe dirigir?
Ele balançou a cabeça para os lados.
Olhei à frente, o carro mais próximo estava a mais ou menos seis metros de onde estávamos.
— Teremos que ir mais rápido, o.k.? — sussurrei ao ouvido dele.
Ele assentiu com a cabeça.
Começamos a dar passos mais rápidos. Demos um, dois, três passos. Então um som: Plash. Paramos.
André começou a tremer.
— André...
Olhei para baixo e vi que ele havia pisado em um dos sapos. Agora uma gosma meio branca, verde e vermelha encobria seu sapato. André tremia mais, ele devia ter olhado para seus pés.
— Acalme-se...
Voltamos a caminhar, André ainda trêmulo. Andamos mais ou menos um metro e meio nessa cadência. Então lembrei de algo: Eu havia esquecido o diário na casa.
Eu não podia deixar o objeto que substituiria Gabriel naquela casa.
— André — eu disse soltando ele. — Eu já volto...
— Onde você vai? — sussurrou ele em desespero.
Houve um silêncio depois disso. Nenhum coaxo. Ficamos parados, como estátuas. Então houve um coaxo, e todos os sapos voltaram ao normal.
— Eu já volto, aguarde aí.
— Renan... — ele disse entre dentes.
Eu andei até a entrada da casa abandonada quando ouvi o mesmo som de esmagamento que eu ouvira uns dez minutos antes. Olhei para trás, André havia pisado em outro sapo, esse porém continuara vivo, apesar de metade esmagado. O animal se mexia e tentava subir na perna de André. O medo me veio súbito.
André, não! Tentei passar essa mensagem a ele balançando minha cabeça negativamente.
— Sai! — resmungou André, chutando o animal.
O silêncio veio, mas dessa vez durou pouco. Os sapos começaram a saltar formando quase que o desenho de uma onda. Uma onda de sapos.
— Droga! — exclamei já correndo em direção a André.
Pulei enquanto corria e consegui agarrar André e tirá-lo do caminho enquanto um monte de sapos caia no lugar onde o rapaz estivera há pouco. Eles continuavam a perseguir André.
Minha velocidade era maior que a de um mortal, isso é um fato. Sabendo disso, coloquei André pendurado em meu ombro direito e comecei a correr, ignorando os sapos no solo. Eles continuavam a pular em cima de nós e em minha frente. Os revidava com meu braço esquerdo. Depois de cinco minutos alcancei o carro que eu havia avistado. Estava trancado, é claro. Porém, então, me lembrei que eu era um Anjo. Fechei os olhos e me concentrei no que eu queria. Abri os olhos e então a trava se abriu. Puxei a maçaneta do carro e abri a porta. Coloquei André no banco do carona e sentei-me no banco do motorista antes de fechar a porta. André tirou o pano de cima de sua cabeça. Olhei para ele, seu rosto estava com uma cor esverdeada.
— Está tudo bem?
Ele fez uma careta e vomitou em cima do pano.


Eu podia tocar nas coisas materiais, eu apenas não podia deixar que ninguém, além de meu protegido — e ainda havia regras quanto a isso, — me visse.
Dirigi rumo a casa de Tabata, tendo sorte por não causar nenhum acidente no caminho. Afinal, eu não era um bom motorista. Os sapos pararam de aparecer depois de certo tempo.
Chegamos em frente à residência da garota mais estranha do mundo, sua mãe e Andressa.
A idéia de que nunca mais poderia falar com Andressa me deixava mal. Minha alma estava nela, minha vida foi por ela. Ela está viva por causa da minha morte. Eu não deveria interferir nisso.
— Você vai entrar e dizer que precisa conversar com a Tabata. Explique a história a ela, mas não diga que me viu. O.k.?
— Não devo dizer que te vi? Por quê?
— Eu te explico depois, André. Apenas se lembre que é de imensa importância que não deve citar meu nome.
Ele assentiu com a cabeça.
— Agora vá lá.
Ele abriu a porta do carro, seu rosto ainda estava pálido. Saiu e foi em direção à porta de entrada. Eu fiquei olhando para ele, me certificando de que tudo ocorreria bem. Ele tocou a campainha duas vezes. Um minuto depois do segundo toque, a porta se abriu. Eu vi André conversar com alguém na porta e depois entrar. Tudo estava bem. Agora eu só tinha que voltar à casa abandonada, buscar o diário de Thomáz.
Eu faria isso de carro mesmo.
Pisei no acelerador, puxei a primeira marcha e então o teto afundou. Olhei para cima, alguém estava andando no teto do automóvel e parou. O silêncio foi doloroso, tenso. Até que olhei para o vidro da frente e dei de cara com o rosto que eu já conhecia, embora ele estivesse um tanto deformado. Levei um susto quando ele abriu um sorriso e disse:
— Oi!

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O Diário

— Isso aqui é um diário? — eu perguntei e me arrependi disso.
Eu esperei Gabriel dizer "Não, idiota, é uma lista telefônica, não vê?" Mas ele não diria isso.
— Renael — ele disse, — eu recebi um chamado do Pai.
Olhei para ele.
— O que isso significa?
— Isso significa que terei de ir.
— Ah... O.k.. Mas por quanto tempo?
Gabriel abaixou a cabeça e torceu o lábio inferior. Depois disso disse:
— Para sempre.
Arregalei meus olhos. Ele não podia estar falando sério!
— Você está brincando não é?
— Não, Renael — ele se afastou de mim.
— Mas... por quê?
Gabriel, de longe, me fitou.
— Há mais mistérios entre o céu e a Terra que você imagina, Renael. Certas coisas são inquestionáveis.
— Mas... — eu não terminei o que eu ia falar. Ele estava certo. As coisas divinas eram inquestionáveis. — Eu posso saber o motivo?
Gabriel não respondeu. Ele se limitou a virar o rosto e fitar algo no chão. Isso devia ser um "não". Compreendi e não insisti em saber a resposta.
— Renael — Gabriel disse, — cumpra sua missão. Você não precisa de mim para isso.
— Mas quem irá me ajudar? — eu acho que fiz uma cara de desespero. — Quem irá me aconselhar? Eu não sei nada sobre como ser um Anjo.
Gabriel permitiu seu rosto a se abrir para um breve sorriso.
— Você está com sua maça aí?
Olhei-o por um minuto até me lembrar. Forcei minha mente para lembrar de onde eu havia guardado. Coloquei a mão em minhas costas e lembrei-me. Passei esta mesma mão por trás de minhas asas e tirei a arma, uma esfera de espinhos presa a um cabo, ambos de ouro.
— Sim, ela está aqui.
— E agora tem o diário. Você não precisa mais de mim.
Fiquei confuso.
— Hei, espere um pouco. Por que a bola com espinhos e este diário te substituiriam?
— Tudo o que eu sei e podia ensinar, já lhe foi ensinado, Renael. Esses dois objetos que estão em suas mãos serão suas maiores armas. A partir de hoje você será treinado, Renael. Treinado e testado — ele voltou seu olhar para mim. — Eu torcerei por você, mas não poderei mais te ajudar.
Ele caminhou em minha direção e parou na minha frente.
— Você é forte, Renael. Você será o Anjo-Rei um dia. Você salvará a humanidade. Sei que posso confiar em você.
Olhei para ele e quase comecei a chorar — que isso não saia daqui. Gabriel me acompanhara no pior momento de minha vida. Ele foi meu Anjo da Guarda. Ele me salvou de inúmeras confusões... ou pelo menos ajudou a salvar. Era difícil acreditar que ele não estaria no momento mais difícil de minha vida... ou melhor... de minha morte. O que seria de mim sem seus conselhos e enigmas?
— O.k. — foi a única coisa que consegui responder.
Ele me abraçou e eu retribui o abraço.
— Droga! — exclamei. — Você vai fazer falta!
Ele me soltou e segurou meus ombros. Olhou nos meus olhos e disse:
— Escute, preste muita atenção. Para vencer seu inimigo, deve conhecê-lo primeiro. Eu quebrei regras lhe trazendo este diário. Por isso, faça valer a pena, irmão.
— Mas... o que tem nesse diário, afinal?
Gabriel se afastou de mim novamente e abriu as asas.
— Adeus, Renael. Se precisar, reze!
Então ele se foi, voando.
A depressão me ocorreu então. Meu Deus! Sem Gabriel o que eu faria? Fora tudo tão rápido... Ele me deixou às traças. Me deixou por conta de mim mesmo... QUEM SOU EU PRA CUIDAR DE MIM MESMO?
Renael, o Anjo-Rei. Este sou eu. Eu conseguiria, claro.
Mas... por que este diário poderia substituir a ajuda de Gabriel, afinal? Estava na hora de descobrir não?
Agarrei a capa do diário, eu quase podia sentir emoção por aquilo. A abri devagar, de repente tive um pressentimento ruim. Como se o que eu estava prestes a fazer fosse algo muito perigoso. Puxei a capa e pude ver a primeira página do diário. Estava rasgada pela metade. A puxei também e comecei a ler as escrituras.

21 de Janeiro de 1956.
Querido diário. Hoje será um dia muito especial para mim. Eu, finalmente, vou conhecer minha irmã. Passei nove meses esperando por isso. É um dos momentos mais aguardados da familia.
Minha mãe estava muito estranha a última vez que a vi. Como se algo houvesse dado errado. Mas, pelo que papai disse, nada dera errado.
Na verdade, papai não me disse que estava tudo bem. Ele disse aos vizinhos, que vieram perguntar sobre minha mãe. Ontem a noite, quando eu fui fazer xixi, papai estava no sofá com um copo na mão. Ele nem me viu. ainda bem, pois se tivesse visto teria brigado comigo. Sempre que eu faço algo errado ele grita algo como "THOMAAAAAAAZ, POR QUE VOCÊ FEZ ISSO?". Hahahahaha chega a ser engraçado até...

Fechei o diário.
Não... Não podia ser.
Abri o diário mais uma vez e procurei algo como uma assinatura, um nome. O achei no final do livrinho. Escrito a lápis, estava na parte de trás da contra-capa, o nome: Thomáz Quirino dos Anjos.
— Ah, cara! — exclamei para mim mesmo. — É o diário do Thomáz.
— Renan?
Olhei para trás com o susto.
— Ai, cara! — disse André tentando levantar do chão. — Minha cabeça está doendo muito!
Larguei o diário em algum lugar e fui ajudá-lo. Agachei em sua frente e o ajudei a se levantar. Me levantei e me lembrei de algo.
— André... — ele olhou para mim e passou a prestar atenção. — Seus pais... Onde eles estão?
André forçou sua mente e eu podia ver pensamentos passando em sua mente. Ele cerrou os olhos e depois os abriu dizendo:
— Ah, sim. Eles estão na casa de minha tia — ele assumiu uma expressão de confusão. — Ou estavam?
Eu continuei a olhá-lo, agora com alívio. Salvei-o do desabamento de sua casa, mas nem verifiquei se havia mais alguém em sua casa.
De repente, a expressão de André mudou para um desespero.
— Minha casa! Ah meu Deus, diga que foi só um sonho o que aconteceu com ela.
— Não é certo um Anjo mentir, André.
O garoto começou a chorar. Ele gemia algo como "minha mãe vai me matar".
Eu queria dizer a ele que não seria a mãe dele que iria matá-lo, mas achei melhor não.
— Se ela tentar, eu protegerei.
Ele olhou para mim como se eu tivesse feito alguma piada ruim.
— Renan, o que aconteceu?
Pensei em um bom jeito de explicá-lo o que aconteceu.
— Sua casa foi destruída por uma chuva de água vermelha — Tá. Acho que esse não foi o melhor jeito de explicar.
— Ah, cara! Meus pais vão me matar!
— André, você está correndo perigo. Não é sua mãe que vai te matar, não.
— O que quer dizer?
Hoje eu estava ótimo com as palavras. Cada uma que eu proferia era um desastre.
Olhei para os lados procurando alguma inspiração para o que eu iria dizer.
— André... noite passada, depois do atentado, você sobreviveu.
— Sim — ele disse e agora começava a ficar bravo com isso. — E daí?
— Bem... acontece que não era para você sobreviver.
Ele abaixou uma sobrancelha e ergueu a outra.
— Você queria que eu estivesse morto? — disse ele com expressão de "não acredito nisso".
— Não! — eu me retratei. — É que... para Thomáz... O Bruno... você não devia ter sobrevivido. Ele te quer morto. Por isso, está atrás de você.
— É o que? — Ele estava em choque agora. — Ele quer me matar?
Eu não queria chocar o garoto desse jeito.
— Olhe — fiz menção para ele se sentar e ele fez. — Vamos ficar por enquanto. Não é o lugar mais protegido do mundo — olhei para o teto quase inexistente e o resto das paredes. — Mas por hoje servirá como abrigo.
Ele se aconchegou no chão e eu fui atrás de alguma coisa para cobri-lo. Então me lembrei do diário. O diário que seria "mais importante que Gabriel". Onde eu o havia deixado? Rodei a visão pelo cômodo em que eu estava e o avistei em cima de um sofá acabado. Chegando perto do sofá lembrei-me que era o mesmo em que Vitor esteve, ressecado e semi-morto.
Agarrei o livro e o puxei. Levei um susto. Assim que puxei o diário vi que havia algo embaixo dele. Algo redondo, molhado e preto. Dei dois passos para trás, depois voltei para onde eu estava. Olhei para aquilo no sofá. Concentrei-me e...
UERBER.
O negócio deu um salto em direção a André e pousou em seu rosto.

domingo, 7 de novembro de 2010

Tempestade

Ele teve um pesadelo. Acordou desesperado. Continuou deitado apesar da respiração estar ofegante.
Aos poucos ele foi se acalmando, respirando com mais calma.
O reflexo normal seria olhar para o relógio e ver que horas eram. Cinco horas da manhã. Ele pensou se seria bom levantar àquela hora. Achou que não por isso voltou a deitar.
Aconchegou sua cabeça no travesseiro e olhou para frente antes de fechar os olhos. Logo ele tornou a abrir os olhos de novo. A respiração voltou a ficar ofegante. Seus olhos encontraram os meus na escuridão.
— Quem está aí? — ele perguntou se esquivando para atrás do travesseiro.
Continuei a olhá-lo com uma imensa vontade de rir.
Ele colocou o travesseiro por sobre seu rosto e de lá perguntou:
— O que você quer?
Me levantei deixando meu corpo totalmente invisível na escuridão que estava em seu quarto.
— Eu quero seu XBOX 360. Agora! — eu disse.
Ele parou de tremer. Deve ter reconhecido minha voz.
Tirou o travesseiro do rosto e apertou os olhos para tentar me ver melhor.
— Renan? — ele tentou adivinhar.
Sorri em resposta, embora ele não fosse ver.
Ele então apalpou o criado-mudo ao lado de sua cama e começou a procurar algo. Achou o abajur e então o ligou. A pequena lâmpada iluminou metade do quarto. Iluminou o bastante para ele poder me ver.
— Renan! — seu rosto deixou aparecer uma expressão de surpresa. — Cara, você me assustou!
Rimos por um momento até que ele pareceu perceber que havia algo errado.
— Espera aí… O que você está fazendo aqui a essa hora?
Pensei em como explicar a história para ele.
— André... Você tem que vir comigo.
Ele não disse nada. Apenas ficou a me fitar.
Enquanto ele estava sentado e parado eu pude perceber as marcas do atentado passado. Seus braços estavam arranhados ainda. Pensei em como ele conseguira se recuperar de mutilações tão rápido.
— Ir onde?
Rodeei a cama dele e me sentei numa poltrona ao lado do criado-mudo.
Olhei para ele e em seu rosto vi milhões de perguntas.
— O que você lembra da noite passada? — perguntei.
Ele forçou sua mente sem sucesso. Ele não se lembraria de nada que ocorrera. Ele não estava consciente na hora.
De repente ele pareceu chocado.
— Eu não... não lembro...
Levantei-me e fui até sua cama. Sentei a seu lado e agarrei seus braços. Virei-os deixando suas cicatrizes à mostra para ele.
— André — eu disse, — você sofreu uma tentativa de assassinato.
Ele fitava suas cicatrizes sem entender.
— Tentaram... me matar? Quem?
— É uma longa história. Mas você corre grande perigo, André.
Ele me olhava sem entender nada.
— Vamos — eu puxei seu cobertor. — Você deve vir comigo.
Andei até a janela e olhei por ela. Lá fora o céu estava escuro. Escuro demais para aquela hora. A luz bizarra continuava onde estava, parecendo sugar tudo ao redor, destruir a cidade na distância. O que seria aquilo? Espero que Gabriel tenha uma explicação.
— Renan... Não estou entendendo, mano — André sentava na cama e calçava seus chinelos.
Olhei para ele.
De repente um trovão cortou o silêncio do quarto.
André estremeceu e eu voltei a olhar pela janela. O céu escuro deixava à mostra nuvens cinzas. Ao fundo, eu podia ver raios apontando para fora delas. Então começou a chover. A chuva começou forte, parecia que ia quebrar a telha do quarto de André. Então a chuva amenizou. Parecendo até ter acabado.
Só então percebi que eu fitava o telhado do quarto. Assim que voltei a mim, sacudi a cabeça e olhei de volta para fora. A chuva ainda caía, mas estava estranha. A água parecia mais escura que o normal.
Deixei isso para lá e voltei a meu foco.
André me fitava curioso.
— Está tudo bem? — perguntou ele.
— Não — respondi-lhe. — Vamos — agarrei-oi pelo braço e o puxei para fora do quarto.
Eu tentava correr, mas com ele estava impossível. O puxei para as escadas. Descíamos com pressa.
— Hei, onde estamos indo? — ele perguntou.
— Um lugar seguro — respondi.
Quando chegamos à sala eu ouvi um som estranho. Algo como chutes. Parecia vir de dentro das paredes. Acompanhei o som por onde eu o ouvia. Passava pelo teto. Estava na parede ao lado de um corredor. Eu segui o som e André vinha atrás. Passei pelo corredor, o som continuava por lá até chegar à uma porta. Abri a porta, era o banheiro. O som percorria a parede e ia até a pia de lavar as mãos. Fitei a torneira por um momento, o som parou. Temi fazer isso, mas fiz. Coloquei a mão sobre ela e girei a válvula controladora. Abriu-se a passagem de água. Nada saíra por um tempo. O som retornou e agora estava mais alto. Parecia percorrer o caminho até o buraco da torneira. Olhamos, prestando a maior atenção. Então a torneira explodiu. Água começou a jorrar e espirrar para todos os lados. Protegemo-nos com os braços. Eu me abaixei e olhei para o chão. Este estava todo molhado já. Mas não por água normal. A água que encharcava o solo era vermelha, da cor de sangue.
— O que é isso? — sussurrei.
— Renan, o que está acontecendo?
Olhei para André, ele estava todo encharcado, todo vermelho. Não podíamos mais ficar ali.
— Vamos.
Levantei-me e dessa vez abri minhas asas para me proteger da água que vinha de todos os lados. Fui empurrando o rapaz. Decidi explicá-lo a história.
— Noite passada, — comecei. Corríamos pelo corredor. Água vermelha vazava das paredes. — Andressa fora raptada. Seu amigo, Bruno, não era o que aparentava ser. Ele tentou te matar, André.
— Bruno? — ele disse com surpresa.
— Sim. Ele fez essas cicatrizes em você. Você estava inconsciente. Você era um sacrifício.
As paredes agora estavam totalmente cobertas por água vermelha. O chão parecia uma piscina cor-de-sangue. Passamos pela cozinha e a torneira de lá explodiu, fazendo jorrar mais água vermelha por todo canto do cômodo. Tínhamos que sair daquela casa.
— Sacrifício?
Paramos na cozinha.
— Bruno, na verdade, chama-se Thomazrael. Ele é um Anjo caído. Ele tentou te sacrificar, mas não conseguiu. Por isso está atrás de você.
André me olhou sem reação. De repente começou a rir histericamente. Riu tanto que teve que se abaixar e colocar a mão na barriga.
— Anjo caído? — disse ele entre risos.
Abaixei para ficar na altura de seu rosto.
— André — ele olhou em meus olhos. — Eu estou morto.
Ele parou de rir, mas continuou sorrindo.
Um som estridente cortou a silêncio que ficara entre nós naquele momento. O teto da cozinha começou a inclinar e rachar. Não demorou trinta segundos ele se partiu no meio e uma onda de água vermelha caiu sobre nós com tanta força que caímos de costas no chão. Fomos empurrados cada um para um lado da casa.
Assim que me recuperei da "tsunami" que me acertara, comecei a procurar André. Agora chovia dentro de casa e isso dificultava meu trabalho.
Achei-o boiando perto das escadas. Andei com dificuldade pela água até ele. Abaixei e o agarrei no colo. Ele estava semi-consciente agora.
— Demorei demais para te tirar daqui, já!
Abri minhas asas mais uma vez e as sacudi para tirar a água. Comecei a balançá-las em um ritmo que me tirasse do chão. Agora eu flutuava acima da água que cobria o solo. Aproveitei o buraco que dava passagem à chuva no teto da cozinha. Saí por ele. Pousei em frente à casa do rapaz em meu colo. Assim que coloquei os pés no chão, a casa fez um barulho medonho e depois se partiu no meio. A casa caiu para os dois lados,  e não digo isso no sentido figurado.
A chuva aos poucos foi parando. No chão, eu via poças de água vermelhas.
A luz bizarra continuava no céu. Thomazrael estava lá, eu sabia disso. O que ele queria? "vem brincar, Renael".
— Você quer brincar, seu desgraçado? — gritei para o alto. — Vamos brincar, então!
Um raio no fundo do céu pareceu me dar uma resposta. Ele estava rindo, eu podia sentir isso. Não vai rir quando eu acabar com a sua raça.
A rua era uma visão assustadora. O céu escuro dava uma aparência escura às casas, aos carros, ao asfalto.
Comecei a voar e ia em direção à casa abandonada, agora destruída. Gabriel devia estar me esperando lá.
André acordou em meu colo. Meio grogue ele disse:
— Você é um anjo, Renan.
Eu ri. Fiquei imaginando se ele aguentaria à pressão que sofreria dali em diante.
— O pior é que sou, André. Seu Anjo da Guarda.
Ele não ouvira. Estava semi-consciente, não entendia nada.
Depois de um tempo voando, pousei em frente à antiga casa. Ela estava em ruínas. Gabriel me esperava em frente a ela.
— Finalmente! — disse o Anjo loiro.
— Eu tive uns probleminhas.
— Está tudo bem. Acompanhe-me, Renael.
Acompanhei-o, ele entrou na casa. A casa continuava do jeito que eu me lembrava — destruída.
— Você disse que queria me mostrar algo... o que é?
— Desocupe suas mãos — Gabriel disse.
Olhei ao redor, procurando uma cadeira ou algo parecido para colocar André. Resolvi deixá-lo no chão mesmo. Deitei-o com cuidado no solo. Quando virei para falar com Gabriel, o Anjo me estendia algo.
Olhei para o objeto. Parecia um livro. Apanhei-o das mãos de Gabriel.
Estudei a capa empoeirada.  Limpei uma parte com a mão e um texto ficou à vista.
Meu diário - 1956.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Prólogo

Thomáz abriu os olhos. Sua esperança acabou naquele momento. Dois minutos antes ele pensava em fazer algo, mas desistira.
PRAC, PRAC, PRAC: era o som que fazia o tamborilar de seus dedos na mesa. Sua impaciência estava aumentando.
A sala parecia uma imensa geladeira. A diferença era que em vez de cubos de gelo, haviam crianças. Todas com a mesma idade de Thomáz, doze anos. Mas era apenas a idade. Thomáz sabia que era diferente delas. Diferente de todos.
Sua cabeça começou a doer, seu corpo estava cada vez mais fraco. Ele precisava... Precisava agora...
— Thomáz? — uma voz despertou-o. — Está prestando atenção?
A professora estava parada na frente dele. Ele olhou ao redor. O olhar de todos estava em seu rosto. Aos poucos foi ficando vermelho.
Ela se afastou e ele ficou a fitar o chão. Não via a hora daquela aula imbecil acabar.
O tempo parecia pesar mais agora. Parecia ter uma pressão imensa sobre suas costas.
Thomáz queria chorar, mas não. Não iria fazer isso na frente de todos.
Os ponteiros do relógio acima da lousa parecia se arrastar. Eles não se moviam.
Thomáz sentiu seu rosto queimar. Colocou a mão nas bochechas, ele estava mesmo quente. Sentiu sua testa, ele estava com febre, concluiu.
A aula tinha que acabar logo.
O suor começou a escorrer. Por quê eu fiz isso? era seu pensamento.
O sinal tocou. Todos saíram correndo para o corredor. A professora se dirigia à porta, mas olhou para trás.
— Não vai descer, Thomáz?
As palavras pairaram pela cabeça de Thomáz, mas ele preferiu ignorar.
A professora desistiu e desceu junto com os outros alunos.
Thomáz ficou quieto por um tempo. Depois passou a fitar seu lápis de escrever. Ele tinha a ponta bem fina. Fina o bastante para furar, cortar talvez.
Ele agarrou o lápis. Contemplou-o por um momento o levando para perto de seu rosto. Começou a tremer. As lágrimas então começaram a sair, escorrer por seu rosto. Os soluços vieram por consequência.
Ele largou o lápis e cobriu o rosto com as mãos.
— Por que choras? — perguntou alguém.
Thomáz tirou as mãos do rosto o bastante para poder ver quem era.
A pessoa estava em frente as janelas, contra a luz. Thomáz viu apenas uma silhueta escura.
Ele enxgou as lágrimas.
— Não estou chorando.
A figura se aproximou andando. Thomáz pôde ver que era um homem. Sua pele era branca e seu cabelo era loiro. Seus olhos eram negros.
— Você não precisa mais chorar — disse o homem.
Thomáz olhou para os olhos do homem e depois disso não conseguiu mais desviar.
— Já disse... — disse Thomás e finalmente conseguiu virar o rosto. — Não estou chorando.
O homem ficou quieto por um tempo mas depois rompeu o silêncio.
— O que você fez não foi totalmente errado.
Thomáz olhou com receio para o homem.
— Não sei do que está falando.
O homem abaixou até deixar seu rosto na altura do rosto de Thomáz.
— Você anotou em seu diário. Não devia deixar memórias tão importantes em um livro.
Thomáz abriu o rosto em surpresa.
— Você leu meu diário?
— Não — o homem levantou novamente. — Eu vi. Eu estava lá. Eu sempre estive em sua vida, Thomazrael.
— O que...
— Sei que não fez por mau. Você apenas deveria ter pensado melhor.
Thomáz deixou seu rosto tremer por um instante até perceber que apertava seus próprios dedos.
— Você não sabe de nada! — gritou o menino.
— Ah, eu sei. Eu sei de tudo, irmão.
O homem andou até a janela e parou de costas para Thomáz.
— O que você fez foi errado, apesar de tudo. Mas o Pai te concede o perdão, contanto que você peça perdão.
Thomáz ficou em silêncio por um momento.
— Do que você está falando? Você é um louco!
Thomáz percebera neste momento que o homem estava sem camisa e descalço.
— Você tem uma missão, Thomazrael. Você só precisa agir com o Pai pede.
— Missão? Que missão?
— Não posso dizer... Mas você descobrirá em breve.
— Eu não estou entendendo nada.
O homem jogou um livro para Thomáz que o agarrou desajeitado.
— Em breve, Thomazrael — disse o homem.
Thomáz olhou para o livro, era seu diário.
— Como... Por que me chama de Thomazra... — ele levantou a visão mas o homem não estava mais lá.
O sinal tocou.