segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O jogo

Ver seu rosto novamente foi uma surpresa para mim. Afinal, ele tinha tanta vontade de fugir que não imaginava que ele voltaria, por qualquer motivo.
— Tom! — exclamei.
Ele, que estava debruçado sobre o carro, apenas com o rosto à mostra no vidro da frente, rolou por sobre o capô do carro e desapareceu à minha frente.
Fiquei tentado a abrir a porta do carro, sair e procurá-lo, mas algo me disse que era melhor eu ficar lá dentro do automóvel por um tempo.
Não passou um minuto, Tom estava ao meu lado — me assustando de novo — puxando a porta, que simplesmente fora arrancada.
— Olha — disse ele, — eu não costumo fazer isso...
Eu o fitei surpreso, esperando para ver se ele arrancaria o banco em que eu estava também. Ele não mudara quase nada. Apenas seu rosto, agora havia umas cicatrizes que eu não sabia bem o que era.
— ... Mas vim lhe trazer um recado.
— Um recado? De quem?
Tom fez sinal para que eu saísse do carro. Eu entendi e me levantei, não sentindo faltada porta a meu lado.
Então, eu estava ao lado daquele que tentara me matar há menos de um dia atrás.
— Olhe — ele se inclinou, como se quisesse esconder o que ia dizer. — Você sabe bem que eu não gosto muito de cumprir ordens, — ele tinha razão. Pelo que eu entendi, Thomáz o havia contratado para que ele me levasse para a casa abandonada, mas Tom não obedecera, tendo quase me assassinado. Não fosse por Gabriel, eu estaria morto muito antes de agora. — porém, esse pedido eu tinha que atender.
— Pedido? — eu não suspeitava de quem viria esse pedido.
— Sim. Há algumas horas atrás, quando você e Gabriel me soltaram do monte de entulho, eu corri e encontrei com Thomazrael. Ele estava à minha espera. Disse-me sobre algum jogo que faria com você. Sabe de algum jogo?
Thomáz, noite passada, havia deixado-me um recado na janela de Andressa. "Vem brincar, Renael". Eu não imaginei que ele estaria falando sério.
— Jogo? — perguntei.
— Sim. Bom, ele disse que você saberia... de qualquer forma, ele pediu para avisá-lo que apenas o Êxodo poderia te ajudar. Faz algum sentido para você?
Discordei com a cabeça. O que ele queria dizer?
— Bom, eu não sei o que significa, mas ele disse que eu poderia assistir à brincadeira de vocês, se eu te trouxesse esse recado.
Ele parou por um instante e começou a farejar o ar. Fiquei olhando, procurando o que ele procurava. Mas então percebi que ele nada procurava.
— Bom... recado dado... só tenho uma dica.
Eu já quase não estava em choque mesmo. Acho que uma dica, mesmo sendo de Tom, ajudaria. Ele se inclinou novamente e sussurrou:
— Thomazrael é muito bom em jogos, tanto para jogar quanto para inventá-los. Ele não costuma trapacear, e talvez esse seja o maior defeito dele. Seus jogos só costumam acabar quando alguém perde. Fique esperto.
Ele começou a farejar o ar novamente e, de repente, um pássaro surgiu do nada, voando em direção à rua. Tom saltou e agarrou o pássaro. Ele caiu do outro lado da rua e depois desapareceu de meu campo de visão.
Êxodo? Estaria ele falando do livro da bíblia? E que jogo é esse do qual ele fala? Ah, eu não sabia que ser Anjo da Guarda era tão complicado!
Eu lembro que, antes de Tom aparecer, eu tinha algo em mente para fazer. Só não consigo me recordar o que era.
Andei alguns passos à frente e me dei por vencido. Eu não lembraria por um bom tempo.
O que eu faria então?
Olhei para a casa. Andressa estava lá dentro. Eu não aguentava mais. Eu precisava ver Andressa. Deixei de lado o que eu ia fazer, já que eu não lembraria, e fui até a porta da casa de Tabata. Parei em frente à entrada, decidindo se eu devia fazer aquilo ou não. Toquei a madeira do objeto que tampava a passagem, pude sentir as emoções de todos que estavam lá dentro. Encostei meu rosto na porta e não consegui ouvir nada. Silêncio. Eles faziam silêncio. Nada se ouvia de lá de dentro. A porta não estava trancada. Virei a maçaneta e a abri devagar, para não chamar atenção. Adentrei minha cabeça no recinto, olhei ao redor, não havia ninguém ali, na cozinha. Entrei de corpo inteiro. Antes que eu pudesse fechar a porta, ouvi o som de um grito. Era André. Corri para o cômodo de onde eu havia ouvido o som de sua voz. Chegando lá avistei André.
— André... — então percorri o olhar pela sala. Dona Ana e Tabata estavam lá.
André olhou-me com uma cara de espanto.
— Renan? — ele disse.
Tabata e dona Ana olharam para a direção que André olhava — a minha direção. A porta, que eu havia deixado aberta, fechou-se com um estrondo que fez todos pularem. Então, todos estavam assustados olhando na minha direção. Fiquei com uma dúvida na cabeça, será que eles me viam? Olhei para André, que eu tinha certeza que me via, coloquei meu dedo indicador direito em frente minha boca, fazendo sinal para ele não fazer nenhum som. Ele compreendeu e disse:
— O Renan... — a atenção das duas tornaram para ele. — Souberam dele?
Dona Ana foi quem disse:
— Nada — ela abaixou a cabeça e ficou fitando algo na mesa de centro por um tempo. Depois levantou a cabeça e continuou a dizer: — Desde que o garoto saiu daqui com aqueles policiais, tarde de ontem, não temos notícias dele.
Ela torceu o rosto em uma expressão triste. André estava se segurando para não dizer o que acontecera realmente.
Percebi que apenas dona Ana falava. Virei o rosto para a direção de Tabata e levei um susto. Ela continuava a olhar em minha direção. Exatamente na direção dos meus olhos. Ela parecia me ver. Fez uma expressão de desconfiada.
— Mãe — disse Tabata, — a senhora pode me fazer um favor?
Dona Ana olhou para a filha, esperando pelo favor que seria pedido.
— Pode ir ver se Andressa está bem?
— Ora, mas por que você não vai?
— Eu... Eu estou com um pouco de dor de barriga... subir as escadas não será muito bom para mim, sabe como é não é?
— O.k., o.k., Tabata... Não precisa dizer isso na frente das visitas.
Dona Ana levantou-se e pegou uma xícara que estava à frente de André. Ele agradeceu. Depois ela veio em minha direção e passou ao meu lado, não parecendo perceber minha presença. Que bom.
Tabata ficou olhando para ela, e fez isso até ela voltar e subir as escadas em direção aos quartos. Ela fez isso olhando para André com a mais simpática das faces. Dona Ana era uma pessoa muito boa.
Assim que dona Ana desapareceu no andar de cima, Tabata se levantou, olhando na direção dos meus olhos.
— Beleza! — ela abriu os braços e fechou os olhos. — Quem está aí? — disse em um sussurro.
Me apoiei no meu pé esquerdo e fitei André.
Ele me respondeu com um olhar de quem diz "Eu não tenho a mínima idéia do que essa louca está fazendo!".
Tabata continuava com os braços abertos. Então, num movimento rápido, ela jogou o braço direito para atrás da cabeça e o voltou para seu lugar. Ela repetiu o movimento com o braço esquerdo. Então fechou as mãos em punhos, jogou os braços para frente e abriu as mãos na minha direção. O que ela estava fazendo, Senhor? Ela abriu os olhos e, neles, eu vi um brilho que não era normal ver naquele rosto coberto por sardas e cachos ruivos. Seus olhos continuavam da mesma cor castanhas, mas brilhavam como se houvesse uma lanterna dentro das órbitas.
— Renan? — disse ela com a voz um pouco alterada.
Devo ter arregalado meu olhos e meu rosto deve ter ficado parecido com o de André, que estava demonstrando sua surpresa com sua boca aberta.
— Renan, é você?
— Tabata? — o mundo parou. Tudo que eu estava pensando se apagou de estalo. A voz que viera da escada preenchera todo o meu ser e, como se fosse água, me encharcou, me cobrindo por inteiro. Andressa descia as escadas. Parou no terceiro degrau e fitou Tabata.— O que está fazendo?
Ela estava linda! Usava a mesma camisola que eu a vestira noite passada.
Tabata abriu os olhos, fixou-os em mim ou, pelo menos, no que ela via. Virou-se e se encaminhou a Andressa.
— Andressa... você está bem? — segurou sua mão e a segurou enquanto ela terminava de descer as escadas.
— Eu estou bem.
Tabata a acompanhou até o sofá e ajudou-a a sentar-se.
Segui até o lado de André enquanto Tabata conversava com Andressa. Abaixei e deixei meus lábios próximos ao ouvido dele.
— Por que gritou? — sussurrei, mal-humorado.
Ele fingira que não me escutara. Ele estava certo, mas eu queria uma explicação.
— Ele apareceu aqui esta manhã... disse que tem algo a lhe falar.
— Você tem? — perguntei a ele.
— Você tem? — perguntou-lhe Andressa.
André se inclinou na direção de Andressa e disse em voz baixa:
— Andressa, o que lembra da noite passada?
— O que está fazendo, André? — inquiri uma resposta.
Andressa fechou os olhos de sono. Reabriu-os e olhou para André com confusão no rosto. Ela, provavelmente, tentava lembrar o que acontecera. Eu me sentia tentado a entrar em sua mente, mas Gabriel me alertara que não era certo fazer isso. Começou a massagear as têmporas e, depois de um tempo, disse:
— Eu... eu não... eu não lembro.
— Andressa — disse André, — ontem a noite aconteceu uma coisa muito estranha...
— André... — tentei persuadi-lo a parar de falar.
— ... Eu não lembro de nada pois eu estava em transe e... — ele continuava.
— André — apoiei-me nas costas do sofá em que ele estava sentado, ficando, assim, ao seu lado. — Cale-se.
— ... e o Renan...
André calou-se. Ele olhou para o chão e viu um ponto vermelho. Percebera, então, que aquele ponto vermelho era um líquido e vinha de algum lugar de seu rosto. Ele tornou a olhar para cima e pôde ver a forma reluzente e dourada da arma que o arranhara a ponta do nariz. Engoliu em seco.
Tirei a maça da frente do rosto de André. Ele não voltou a falar.
Andressa, que até então massageava a pele entre as sobrancelhas e o coro cabeludo começou a sussurrar algumas palavras. Dentre elas, consegui reconhecer uma:
— ...Tânia...
— O quê? — perguntou Tabata.
— Tânia... Ele me pediu para encontrar Tânia. Tânia Correia Medeiros.
Andressa lembrava. Eu mesmo não lembrava. Isso, Andressa!
— Ele quem? — Tabata questionou.
— Renan.
Tabata continuou a fitar Andressa.
— Você o viu? Ele que te trouxe aqui?
André permanecia imóvel, não sabendo se devia responder às perguntas de Tabata.
Andressa olhou para André e, em seu rosto, houve certeza, como se só ele pudesse responder o que ela perguntaria.
— O Renan... Ele está morto, não está?
André não sabia se respondia. Ele estava com medo do que eu podia fazer a ele.
Coloquei a mão em seu ombro, tranquilizador. Ele olhou para mim e eu balancei a cabeça, assentindo.
André abaixou a cabeça e Andressa entendeu isso como um "sim".
Tabata colocou as mãos sobre a boca e seus olhos se encheram de lágrimas.
— Mas... como? Como? — Tabata começou a chorar.
Andressa levantou-se, decidida. Se encaminhou à escada e começou a subi-la.
— Onde você vai, Andressa? — perguntou Tabata.
— Vou pegar minhas coisas. — ela subia com a confiança denominando sua mente. Percebi que eu sorria. — Vou encontrar essa Tânia.
Tabata e André se entre-olharam, mas foi Tabata que disse.
— Mas Andressa.... não sabemos nada sobre essa mulher.
— Eu sei que ela mora no centro de São Paulo, pra mim já é o bastante.
De repente, um som interrompeu a conversa. Pareceu uma explosão, mas vinha de tão distante... parecia ter vindo do céu.
— O que foi isso? — André disse.
Andressa, que estava parada em meio a escada, terminou de subir a escada, provavelmente para olhar o céu de alguma janela lá em cima. Tabata e André correram para a porta da frente, a abriram e saíram para a rua. Eu os segui. Assim que coloquei os pés fora da casa de Tabata, André me olhou com urgência. Fez menção a algo que estava acima dele. O céu. Ele apontava para o céu. Eu o segui e levantei minha cabeça. Acima de nós, a minha certeza de que Thomáz falara sério em relação a fazer um jogo.
A luz que parecia sugar tudo ao seu redor, presente no céu, dissipara-se, dando lugar a um enorme contador regressivo luminoso. Parecia ser feito de névoa. Os números eram claros e me deixavam com um medo e uma agonia crescente, a cada vez que um número se transformava. Os números marcavam:
47:58:45

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