— Ow! — resmungou André.
Eu vi o animal se jogar de encontro ao rosto de meu protegido e o peso do impacto fora tão grande que André caiu para o lado.
— Ah! Tira! Tira! — André dizia com desespero.
Eu me aproximei do rapaz que estava deitado no chão com as mãos no animal que agora eu podia ver com nitidez. Era um sapo, ou algo parecido. Agarrei o anfíbio e o puxei. André se mexia e estava quase impossível tirar o animal de seu rosto. Ele parecia estar grudado à cola quente. Puxei-o com maior força e o animal soltou o rosto de André. Dei dois passos para trás e quase cai de costas com a força que usei — e que recebi de volta, segundo lei de Newton.
Contemplei o ser em minhas mãos, parecia uma almofada redonda, porém sua pele era escamosa e escorregadia. O animal não queria estar em minhas mãos. Ele tentava com todas as suas forças se jogar em André. Procurei algum lugar para colocar o animal insaciável. A busca fora tão cansativa e inútil que o animal conseguira se soltar e pular atrás de André.
— André! — alertei.
André viu o animal se aproximar e se abaixou. Engatinhou em minha direção e eu observei o anfíbio cair onde André estivera há pouco tempo.
Aquele animal queria fazer mal a meu protegido. E, segundo Gabriel, eu haveria de protege-lo a qualquer custo. Mesmo que isso custasse a vida de um sapo. Apanhei minha maça dourada e esperei o animal pular em minha direção. Quando ele o fez eu o rebati com a arma. O animal explodiu com um som mais ou menos assim: Plash.
Arfamos em conjunto, André e eu.
— Ah, Cara! Que bicho é esse?
— Eu não sei, mas sei de onde veio.
Fui até a entrada da casa e tentei abrir a porta, estava emperrada. Empurrei-a segurando na maçaneta. A porta continuou em seu lugar. A maçaneta, porém, continuou em minha mão. Forcei a porta com meu corpo, empurrando-a. Então ela finalmente abriu. A porta se encaminhou para fora dando visão à coisa mais estranha que já vi em minha vida.
Lá fora, no chão, poças de água vermelha, sobre elas, milhões de sapos. Todos coaxavam e saltavam individualmente em seu espaço. Porém, quando André chegou ao meu lado e disse:
— Mas o que é isso?
Os anfíbios pararam de fazer o que estavam fazendo. Não houve nenhum som, nem de coaxo, nem de sapos pulando. Todos tornaram a atenção para André. Em menos de um minuto, seguido de um coaxo apenas, todos os sapos saltaram e se jogaram em direção a nós.
Empurrei André para trás e puxei a porta segurando em um dos vãos. Os sapos se chocaram contra a entrada mas eu não cedi, apesar estar sendo difícil segurar aquela porta. Depois de um tempo, os sapos se acalmaram e eu, então, fechei a porta por completo, puxando-a pelo buraco que ficara no local onde estava a maçaneta. Apoiei minhas costas e fiquei a fitar André.
Tirá-lo daqui deveria ser prioridade. Eu tinha que arranjar um jeito de fazer isso, mas como? Os sapos o queriam, isso estava evidente. Se bem que... que perigo pode oferecer um simples anfíbio?
Bom... um monte de anfíbios podem oferecer perigo quando todos eles estão em cima de você. E se houvesse algum perigoso? Venenoso? E se nem fossem sapos comuns?
— Renan? — André estalou os dedos à minha frente e eu despertei.
— Tenho que te levar a algum lugar seguro.
Agachei onde estava e comecei a pensar. Onde eu o levaria? Onde ele estaria seguro? Isso só podia ser coisa de Thomazrael! Ele perseguiria André em todo lugar. Primeiro a chuva de água vermelha, depois os sapos... Isso até me soava familiar.
E se eu o levasse para a casa de Tabata? Talvez fosse um lugar bom para ele ficar. Tabata, toda paranormal... Agora me veio a cabeça... Eu nem tive a oportunidade de me despedir de Tabata e sua mãe.
Sua casa era a opção mais segura. O problema seria o transporte. Será que eu conseguiria levar André sem maiores problemas com os sapos? eu poderia voar com ele, se Gabriel não tivesse me alertado sobre isso. Não devemos voar com os protegidos, não enquanto eles estão conscientes.
Olhei para todos os cantos da casa, apenas avistei pedaços de madeira, tijolos e papelão. Mais ao canto, havia um pedaço de pano velho.
— Renan, você está dormindo?
Eu teria que escondê-lo.
Dei o primeiro passo afora de casa. Os sapos pareceram não me perceber — se perceberam, fizeram pouco caso. Olhei para André atrás de mim, ainda dentro da casa abandonada. Fiz sinal para que ele viesse. Ele relutou, porém, com minha insistência, ele resolveu vir. Seus primeiros passos foram lentos e assustados. Então, percebendo sua insegurança, fui buscá-lo.
— Vai dar tudo certo! — eu lhe disse. Ele assentiu.
Agarrei-o pelos ombros e comecei a andar com o rapaz encapuzado com o pano velho. Jogamos o pano por cima de seu corpo, tampando sua cabeça e, por consequência, sua visão. Apenas sobrou um buraco perto do nariz, por onde ele conseguiria olhar o chão em que pisava.
— Não diga nada. Pode chamar a atenção deles.
Ele assentiu mais uma vez.
Demos um passo a frente, nenhuma reação dos anfíbios.
Continuamos em passo lento não causando ação dos sapos. Estávamos, aos poucos, alcançando uma distância considerável da casa abandonada. O problema era que a casa de Tabata ficava a quase um bairro dali. Não chegaríamos nunca a nosso destino na velocidade que estávamos. Aproximei minha boca do ouvido de André.
— Responda com a cabeça, você sabe dirigir?
Ele balançou a cabeça para os lados.
Olhei à frente, o carro mais próximo estava a mais ou menos seis metros de onde estávamos.
— Teremos que ir mais rápido, o.k.? — sussurrei ao ouvido dele.
Ele assentiu com a cabeça.
Começamos a dar passos mais rápidos. Demos um, dois, três passos. Então um som: Plash. Paramos.
André começou a tremer.
— André...
Olhei para baixo e vi que ele havia pisado em um dos sapos. Agora uma gosma meio branca, verde e vermelha encobria seu sapato. André tremia mais, ele devia ter olhado para seus pés.
— Acalme-se...
Voltamos a caminhar, André ainda trêmulo. Andamos mais ou menos um metro e meio nessa cadência. Então lembrei de algo: Eu havia esquecido o diário na casa.
Eu não podia deixar o objeto que substituiria Gabriel naquela casa.
— André — eu disse soltando ele. — Eu já volto...
— Onde você vai? — sussurrou ele em desespero.
Houve um silêncio depois disso. Nenhum coaxo. Ficamos parados, como estátuas. Então houve um coaxo, e todos os sapos voltaram ao normal.
— Eu já volto, aguarde aí.
— Renan... — ele disse entre dentes.
Eu andei até a entrada da casa abandonada quando ouvi o mesmo som de esmagamento que eu ouvira uns dez minutos antes. Olhei para trás, André havia pisado em outro sapo, esse porém continuara vivo, apesar de metade esmagado. O animal se mexia e tentava subir na perna de André. O medo me veio súbito.
André, não! Tentei passar essa mensagem a ele balançando minha cabeça negativamente.
— Sai! — resmungou André, chutando o animal.
O silêncio veio, mas dessa vez durou pouco. Os sapos começaram a saltar formando quase que o desenho de uma onda. Uma onda de sapos.
— Droga! — exclamei já correndo em direção a André.
Pulei enquanto corria e consegui agarrar André e tirá-lo do caminho enquanto um monte de sapos caia no lugar onde o rapaz estivera há pouco. Eles continuavam a perseguir André.
Minha velocidade era maior que a de um mortal, isso é um fato. Sabendo disso, coloquei André pendurado em meu ombro direito e comecei a correr, ignorando os sapos no solo. Eles continuavam a pular em cima de nós e em minha frente. Os revidava com meu braço esquerdo. Depois de cinco minutos alcancei o carro que eu havia avistado. Estava trancado, é claro. Porém, então, me lembrei que eu era um Anjo. Fechei os olhos e me concentrei no que eu queria. Abri os olhos e então a trava se abriu. Puxei a maçaneta do carro e abri a porta. Coloquei André no banco do carona e sentei-me no banco do motorista antes de fechar a porta. André tirou o pano de cima de sua cabeça. Olhei para ele, seu rosto estava com uma cor esverdeada.
— Está tudo bem?
Ele fez uma careta e vomitou em cima do pano.
Eu podia tocar nas coisas materiais, eu apenas não podia deixar que ninguém, além de meu protegido — e ainda havia regras quanto a isso, — me visse.
Dirigi rumo a casa de Tabata, tendo sorte por não causar nenhum acidente no caminho. Afinal, eu não era um bom motorista. Os sapos pararam de aparecer depois de certo tempo.
Chegamos em frente à residência da garota mais estranha do mundo, sua mãe e Andressa.
A idéia de que nunca mais poderia falar com Andressa me deixava mal. Minha alma estava nela, minha vida foi por ela. Ela está viva por causa da minha morte. Eu não deveria interferir nisso.
— Você vai entrar e dizer que precisa conversar com a Tabata. Explique a história a ela, mas não diga que me viu. O.k.?
— Não devo dizer que te vi? Por quê?
— Eu te explico depois, André. Apenas se lembre que é de imensa importância que não deve citar meu nome.
Ele assentiu com a cabeça.
— Agora vá lá.
Ele abriu a porta do carro, seu rosto ainda estava pálido. Saiu e foi em direção à porta de entrada. Eu fiquei olhando para ele, me certificando de que tudo ocorreria bem. Ele tocou a campainha duas vezes. Um minuto depois do segundo toque, a porta se abriu. Eu vi André conversar com alguém na porta e depois entrar. Tudo estava bem. Agora eu só tinha que voltar à casa abandonada, buscar o diário de Thomáz.
Eu faria isso de carro mesmo.
Pisei no acelerador, puxei a primeira marcha e então o teto afundou. Olhei para cima, alguém estava andando no teto do automóvel e parou. O silêncio foi doloroso, tenso. Até que olhei para o vidro da frente e dei de cara com o rosto que eu já conhecia, embora ele estivesse um tanto deformado. Levei um susto quando ele abriu um sorriso e disse:
— Oi!
oÕ Nouss, dorei. rsrs o sapo é daquela história das pragas do egito? Parece.. E a chuva. Eu acho q tem algo sobre chuva-não, me lembrei! A água do Mar Vermelho! rsrs
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