Ele teve um pesadelo. Acordou desesperado. Continuou deitado apesar da respiração estar ofegante.
Aos poucos ele foi se acalmando, respirando com mais calma.
O reflexo normal seria olhar para o relógio e ver que horas eram. Cinco horas da manhã. Ele pensou se seria bom levantar àquela hora. Achou que não por isso voltou a deitar.
Aconchegou sua cabeça no travesseiro e olhou para frente antes de fechar os olhos. Logo ele tornou a abrir os olhos de novo. A respiração voltou a ficar ofegante. Seus olhos encontraram os meus na escuridão.
— Quem está aí? — ele perguntou se esquivando para atrás do travesseiro.
Continuei a olhá-lo com uma imensa vontade de rir.
Ele colocou o travesseiro por sobre seu rosto e de lá perguntou:
— O que você quer?
Me levantei deixando meu corpo totalmente invisível na escuridão que estava em seu quarto.
— Eu quero seu XBOX 360. Agora! — eu disse.
Ele parou de tremer. Deve ter reconhecido minha voz.
Tirou o travesseiro do rosto e apertou os olhos para tentar me ver melhor.
— Renan? — ele tentou adivinhar.
Sorri em resposta, embora ele não fosse ver.
Ele então apalpou o criado-mudo ao lado de sua cama e começou a procurar algo. Achou o abajur e então o ligou. A pequena lâmpada iluminou metade do quarto. Iluminou o bastante para ele poder me ver.
— Renan! — seu rosto deixou aparecer uma expressão de surpresa. — Cara, você me assustou!
Rimos por um momento até que ele pareceu perceber que havia algo errado.
— Espera aí… O que você está fazendo aqui a essa hora?
Pensei em como explicar a história para ele.
— André... Você tem que vir comigo.
Ele não disse nada. Apenas ficou a me fitar.
Enquanto ele estava sentado e parado eu pude perceber as marcas do atentado passado. Seus braços estavam arranhados ainda. Pensei em como ele conseguira se recuperar de mutilações tão rápido.
— Ir onde?
Rodeei a cama dele e me sentei numa poltrona ao lado do criado-mudo.
Olhei para ele e em seu rosto vi milhões de perguntas.
— O que você lembra da noite passada? — perguntei.
Ele forçou sua mente sem sucesso. Ele não se lembraria de nada que ocorrera. Ele não estava consciente na hora.
De repente ele pareceu chocado.
— Eu não... não lembro...
Levantei-me e fui até sua cama. Sentei a seu lado e agarrei seus braços. Virei-os deixando suas cicatrizes à mostra para ele.
— André — eu disse, — você sofreu uma tentativa de assassinato.
Ele fitava suas cicatrizes sem entender.
— Tentaram... me matar? Quem?
— É uma longa história. Mas você corre grande perigo, André.
Ele me olhava sem entender nada.
— Vamos — eu puxei seu cobertor. — Você deve vir comigo.
Andei até a janela e olhei por ela. Lá fora o céu estava escuro. Escuro demais para aquela hora. A luz bizarra continuava onde estava, parecendo sugar tudo ao redor, destruir a cidade na distância. O que seria aquilo? Espero que Gabriel tenha uma explicação.
— Renan... Não estou entendendo, mano — André sentava na cama e calçava seus chinelos.
Olhei para ele.
De repente um trovão cortou o silêncio do quarto.
André estremeceu e eu voltei a olhar pela janela. O céu escuro deixava à mostra nuvens cinzas. Ao fundo, eu podia ver raios apontando para fora delas. Então começou a chover. A chuva começou forte, parecia que ia quebrar a telha do quarto de André. Então a chuva amenizou. Parecendo até ter acabado.
Só então percebi que eu fitava o telhado do quarto. Assim que voltei a mim, sacudi a cabeça e olhei de volta para fora. A chuva ainda caía, mas estava estranha. A água parecia mais escura que o normal.
Deixei isso para lá e voltei a meu foco.
André me fitava curioso.
— Está tudo bem? — perguntou ele.
— Não — respondi-lhe. — Vamos — agarrei-oi pelo braço e o puxei para fora do quarto.
Eu tentava correr, mas com ele estava impossível. O puxei para as escadas. Descíamos com pressa.
— Hei, onde estamos indo? — ele perguntou.
— Um lugar seguro — respondi.
Quando chegamos à sala eu ouvi um som estranho. Algo como chutes. Parecia vir de dentro das paredes. Acompanhei o som por onde eu o ouvia. Passava pelo teto. Estava na parede ao lado de um corredor. Eu segui o som e André vinha atrás. Passei pelo corredor, o som continuava por lá até chegar à uma porta. Abri a porta, era o banheiro. O som percorria a parede e ia até a pia de lavar as mãos. Fitei a torneira por um momento, o som parou. Temi fazer isso, mas fiz. Coloquei a mão sobre ela e girei a válvula controladora. Abriu-se a passagem de água. Nada saíra por um tempo. O som retornou e agora estava mais alto. Parecia percorrer o caminho até o buraco da torneira. Olhamos, prestando a maior atenção. Então a torneira explodiu. Água começou a jorrar e espirrar para todos os lados. Protegemo-nos com os braços. Eu me abaixei e olhei para o chão. Este estava todo molhado já. Mas não por água normal. A água que encharcava o solo era vermelha, da cor de sangue.
— O que é isso? — sussurrei.
— Renan, o que está acontecendo?
Olhei para André, ele estava todo encharcado, todo vermelho. Não podíamos mais ficar ali.
— Vamos.
Levantei-me e dessa vez abri minhas asas para me proteger da água que vinha de todos os lados. Fui empurrando o rapaz. Decidi explicá-lo a história.
— Noite passada, — comecei. Corríamos pelo corredor. Água vermelha vazava das paredes. — Andressa fora raptada. Seu amigo, Bruno, não era o que aparentava ser. Ele tentou te matar, André.
— Bruno? — ele disse com surpresa.
— Sim. Ele fez essas cicatrizes em você. Você estava inconsciente. Você era um sacrifício.
As paredes agora estavam totalmente cobertas por água vermelha. O chão parecia uma piscina cor-de-sangue. Passamos pela cozinha e a torneira de lá explodiu, fazendo jorrar mais água vermelha por todo canto do cômodo. Tínhamos que sair daquela casa.
— Sacrifício?
Paramos na cozinha.
— Bruno, na verdade, chama-se Thomazrael. Ele é um Anjo caído. Ele tentou te sacrificar, mas não conseguiu. Por isso está atrás de você.
André me olhou sem reação. De repente começou a rir histericamente. Riu tanto que teve que se abaixar e colocar a mão na barriga.
— Anjo caído? — disse ele entre risos.
Abaixei para ficar na altura de seu rosto.
— André — ele olhou em meus olhos. — Eu estou morto.
Ele parou de rir, mas continuou sorrindo.
Um som estridente cortou a silêncio que ficara entre nós naquele momento. O teto da cozinha começou a inclinar e rachar. Não demorou trinta segundos ele se partiu no meio e uma onda de água vermelha caiu sobre nós com tanta força que caímos de costas no chão. Fomos empurrados cada um para um lado da casa.
Assim que me recuperei da "tsunami" que me acertara, comecei a procurar André. Agora chovia dentro de casa e isso dificultava meu trabalho.
Achei-o boiando perto das escadas. Andei com dificuldade pela água até ele. Abaixei e o agarrei no colo. Ele estava semi-consciente agora.
— Demorei demais para te tirar daqui, já!
Abri minhas asas mais uma vez e as sacudi para tirar a água. Comecei a balançá-las em um ritmo que me tirasse do chão. Agora eu flutuava acima da água que cobria o solo. Aproveitei o buraco que dava passagem à chuva no teto da cozinha. Saí por ele. Pousei em frente à casa do rapaz em meu colo. Assim que coloquei os pés no chão, a casa fez um barulho medonho e depois se partiu no meio. A casa caiu para os dois lados, e não digo isso no sentido figurado.
A chuva aos poucos foi parando. No chão, eu via poças de água vermelhas.
A luz bizarra continuava no céu. Thomazrael estava lá, eu sabia disso. O que ele queria? "vem brincar, Renael".
— Você quer brincar, seu desgraçado? — gritei para o alto. — Vamos brincar, então!
Um raio no fundo do céu pareceu me dar uma resposta. Ele estava rindo, eu podia sentir isso. Não vai rir quando eu acabar com a sua raça.
A rua era uma visão assustadora. O céu escuro dava uma aparência escura às casas, aos carros, ao asfalto.
Comecei a voar e ia em direção à casa abandonada, agora destruída. Gabriel devia estar me esperando lá.
André acordou em meu colo. Meio grogue ele disse:
— Você é um anjo, Renan.
Eu ri. Fiquei imaginando se ele aguentaria à pressão que sofreria dali em diante.
— O pior é que sou, André. Seu Anjo da Guarda.
Ele não ouvira. Estava semi-consciente, não entendia nada.
Depois de um tempo voando, pousei em frente à antiga casa. Ela estava em ruínas. Gabriel me esperava em frente a ela.
— Finalmente! — disse o Anjo loiro.
— Eu tive uns probleminhas.
— Está tudo bem. Acompanhe-me, Renael.
Acompanhei-o, ele entrou na casa. A casa continuava do jeito que eu me lembrava — destruída.
— Você disse que queria me mostrar algo... o que é?
— Desocupe suas mãos — Gabriel disse.
Olhei ao redor, procurando uma cadeira ou algo parecido para colocar André. Resolvi deixá-lo no chão mesmo. Deitei-o com cuidado no solo. Quando virei para falar com Gabriel, o Anjo me estendia algo.
Olhei para o objeto. Parecia um livro. Apanhei-o das mãos de Gabriel.
Estudei a capa empoeirada. Limpei uma parte com a mão e um texto ficou à vista.
Meu diário - 1956.
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