— Isso aqui é um diário? — eu perguntei e me arrependi disso.
Eu esperei Gabriel dizer "Não, idiota, é uma lista telefônica, não vê?" Mas ele não diria isso.
— Renael — ele disse, — eu recebi um chamado do Pai.
Olhei para ele.
— O que isso significa?
— Isso significa que terei de ir.
— Ah... O.k.. Mas por quanto tempo?
Gabriel abaixou a cabeça e torceu o lábio inferior. Depois disso disse:
— Para sempre.
Arregalei meus olhos. Ele não podia estar falando sério!
— Você está brincando não é?
— Não, Renael — ele se afastou de mim.
— Mas... por quê?
Gabriel, de longe, me fitou.
— Há mais mistérios entre o céu e a Terra que você imagina, Renael. Certas coisas são inquestionáveis.
— Mas... — eu não terminei o que eu ia falar. Ele estava certo. As coisas divinas eram inquestionáveis. — Eu posso saber o motivo?
Gabriel não respondeu. Ele se limitou a virar o rosto e fitar algo no chão. Isso devia ser um "não". Compreendi e não insisti em saber a resposta.
— Renael — Gabriel disse, — cumpra sua missão. Você não precisa de mim para isso.
— Mas quem irá me ajudar? — eu acho que fiz uma cara de desespero. — Quem irá me aconselhar? Eu não sei nada sobre como ser um Anjo.
Gabriel permitiu seu rosto a se abrir para um breve sorriso.
— Você está com sua maça aí?
Olhei-o por um minuto até me lembrar. Forcei minha mente para lembrar de onde eu havia guardado. Coloquei a mão em minhas costas e lembrei-me. Passei esta mesma mão por trás de minhas asas e tirei a arma, uma esfera de espinhos presa a um cabo, ambos de ouro.
— Sim, ela está aqui.
— E agora tem o diário. Você não precisa mais de mim.
Fiquei confuso.
— Hei, espere um pouco. Por que a bola com espinhos e este diário te substituiriam?
— Tudo o que eu sei e podia ensinar, já lhe foi ensinado, Renael. Esses dois objetos que estão em suas mãos serão suas maiores armas. A partir de hoje você será treinado, Renael. Treinado e testado — ele voltou seu olhar para mim. — Eu torcerei por você, mas não poderei mais te ajudar.
Ele caminhou em minha direção e parou na minha frente.
— Você é forte, Renael. Você será o Anjo-Rei um dia. Você salvará a humanidade. Sei que posso confiar em você.
Olhei para ele e quase comecei a chorar — que isso não saia daqui. Gabriel me acompanhara no pior momento de minha vida. Ele foi meu Anjo da Guarda. Ele me salvou de inúmeras confusões... ou pelo menos ajudou a salvar. Era difícil acreditar que ele não estaria no momento mais difícil de minha vida... ou melhor... de minha morte. O que seria de mim sem seus conselhos e enigmas?
— O.k. — foi a única coisa que consegui responder.
Ele me abraçou e eu retribui o abraço.
— Droga! — exclamei. — Você vai fazer falta!
Ele me soltou e segurou meus ombros. Olhou nos meus olhos e disse:
— Escute, preste muita atenção. Para vencer seu inimigo, deve conhecê-lo primeiro. Eu quebrei regras lhe trazendo este diário. Por isso, faça valer a pena, irmão.
— Mas... o que tem nesse diário, afinal?
Gabriel se afastou de mim novamente e abriu as asas.
— Adeus, Renael. Se precisar, reze!
Então ele se foi, voando.
A depressão me ocorreu então. Meu Deus! Sem Gabriel o que eu faria? Fora tudo tão rápido... Ele me deixou às traças. Me deixou por conta de mim mesmo... QUEM SOU EU PRA CUIDAR DE MIM MESMO?
Renael, o Anjo-Rei. Este sou eu. Eu conseguiria, claro.
Mas... por que este diário poderia substituir a ajuda de Gabriel, afinal? Estava na hora de descobrir não?
Agarrei a capa do diário, eu quase podia sentir emoção por aquilo. A abri devagar, de repente tive um pressentimento ruim. Como se o que eu estava prestes a fazer fosse algo muito perigoso. Puxei a capa e pude ver a primeira página do diário. Estava rasgada pela metade. A puxei também e comecei a ler as escrituras.
21 de Janeiro de 1956.
Querido diário. Hoje será um dia muito especial para mim. Eu, finalmente, vou conhecer minha irmã. Passei nove meses esperando por isso. É um dos momentos mais aguardados da familia.
Minha mãe estava muito estranha a última vez que a vi. Como se algo houvesse dado errado. Mas, pelo que papai disse, nada dera errado.
Na verdade, papai não me disse que estava tudo bem. Ele disse aos vizinhos, que vieram perguntar sobre minha mãe. Ontem a noite, quando eu fui fazer xixi, papai estava no sofá com um copo na mão. Ele nem me viu. ainda bem, pois se tivesse visto teria brigado comigo. Sempre que eu faço algo errado ele grita algo como "THOMAAAAAAAZ, POR QUE VOCÊ FEZ ISSO?". Hahahahaha chega a ser engraçado até...
Fechei o diário.
Não... Não podia ser.
Abri o diário mais uma vez e procurei algo como uma assinatura, um nome. O achei no final do livrinho. Escrito a lápis, estava na parte de trás da contra-capa, o nome: Thomáz Quirino dos Anjos.
— Ah, cara! — exclamei para mim mesmo. — É o diário do Thomáz.
— Renan?
Olhei para trás com o susto.
— Ai, cara! — disse André tentando levantar do chão. — Minha cabeça está doendo muito!
Larguei o diário em algum lugar e fui ajudá-lo. Agachei em sua frente e o ajudei a se levantar. Me levantei e me lembrei de algo.
— André... — ele olhou para mim e passou a prestar atenção. — Seus pais... Onde eles estão?
André forçou sua mente e eu podia ver pensamentos passando em sua mente. Ele cerrou os olhos e depois os abriu dizendo:
— Ah, sim. Eles estão na casa de minha tia — ele assumiu uma expressão de confusão. — Ou estavam?
Eu continuei a olhá-lo, agora com alívio. Salvei-o do desabamento de sua casa, mas nem verifiquei se havia mais alguém em sua casa.
De repente, a expressão de André mudou para um desespero.
— Minha casa! Ah meu Deus, diga que foi só um sonho o que aconteceu com ela.
— Não é certo um Anjo mentir, André.
O garoto começou a chorar. Ele gemia algo como "minha mãe vai me matar".
Eu queria dizer a ele que não seria a mãe dele que iria matá-lo, mas achei melhor não.
— Se ela tentar, eu protegerei.
Ele olhou para mim como se eu tivesse feito alguma piada ruim.
— Renan, o que aconteceu?
Pensei em um bom jeito de explicá-lo o que aconteceu.
— Sua casa foi destruída por uma chuva de água vermelha — Tá. Acho que esse não foi o melhor jeito de explicar.
— Ah, cara! Meus pais vão me matar!
— André, você está correndo perigo. Não é sua mãe que vai te matar, não.
— O que quer dizer?
Hoje eu estava ótimo com as palavras. Cada uma que eu proferia era um desastre.
Olhei para os lados procurando alguma inspiração para o que eu iria dizer.
— André... noite passada, depois do atentado, você sobreviveu.
— Sim — ele disse e agora começava a ficar bravo com isso. — E daí?
— Bem... acontece que não era para você sobreviver.
Ele abaixou uma sobrancelha e ergueu a outra.
— Você queria que eu estivesse morto? — disse ele com expressão de "não acredito nisso".
— Não! — eu me retratei. — É que... para Thomáz... O Bruno... você não devia ter sobrevivido. Ele te quer morto. Por isso, está atrás de você.
— É o que? — Ele estava em choque agora. — Ele quer me matar?
Eu não queria chocar o garoto desse jeito.
— Olhe — fiz menção para ele se sentar e ele fez. — Vamos ficar por enquanto. Não é o lugar mais protegido do mundo — olhei para o teto quase inexistente e o resto das paredes. — Mas por hoje servirá como abrigo.
Ele se aconchegou no chão e eu fui atrás de alguma coisa para cobri-lo. Então me lembrei do diário. O diário que seria "mais importante que Gabriel". Onde eu o havia deixado? Rodei a visão pelo cômodo em que eu estava e o avistei em cima de um sofá acabado. Chegando perto do sofá lembrei-me que era o mesmo em que Vitor esteve, ressecado e semi-morto.
Agarrei o livro e o puxei. Levei um susto. Assim que puxei o diário vi que havia algo embaixo dele. Algo redondo, molhado e preto. Dei dois passos para trás, depois voltei para onde eu estava. Olhei para aquilo no sofá. Concentrei-me e...
UERBER.
O negócio deu um salto em direção a André e pousou em seu rosto.
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